5 Lições de Santiago Uribe para Transformar Cidades Através das Pessoas

por Thiago Pandolfo

Durante o Novo Hamburgo Feevale Summit,  promovemos o segundo encontro de 2025 dos Autores da Inovação. Este é um evento que busca reunir os principais movimentos de inovação dos 21 municípios da área de atuação da Sicredi Pioneira. Estavam presentes secretários de inovação, representantes de entidades, universidades, empresários e da sociedade civil.

Neste encontro, em particular, contamos com a participação de Santiago Uribe, antropólogo colombiano que é uma referência internacional em resiliência urbana, inovação social e desenvolvimento territorial. Ele teve papel fundamental na reestruturação de Medellín, que passou de uma das cidades mais violentas do mundo a um exemplo global de urbanismo social.

Este artigo resume os principais insights que Uribe compartilhou durante uma conversa de duas horas, extremamente inspiradora e alinhada a uma visão de desenvolvimento socioeconômico local.

1. O Poder das Comunidades e a Força da Colaboração

O desenvolvimento surge da união de forças entre diversos atores. Pessoas organizadas e colaborando entre si, mesmo sendo concorrentes, têm mais poder para transformar o ambiente onde vivem. A colaboração gera fortalecimento mútuo.

Pessoas que imaginam um futuro e se unem para realizar ações conjuntas com frequência transformam essas iniciativas em processos de longo prazo, criando uma nova cultura. A união entre concorrentes pode criar uma força poderosa, fazendo o "bolo" crescer e gerando mais resultados para todos.

Como exemplo, Uribe citou o caso de uma artista plástica que, em 1998, convidou sete amigos para se mudarem para a mesma rua em um bairro de Medellín. Todas as quintas-feiras, eles abriam suas casas para mostrar seus trabalhos. Um ano depois, já eram 20 casas. Cinco anos mais tarde, a iniciativa havia se consolidado como um destino turístico e um polo cultural e econômico da cidade.

2. Educação Inovadora Cria Conexões Emocionais

Trabalhar a inovação na educação é provocar um movimento que transcenda os muros da escola e transforme a cidade em um ambiente de aprendizado, criando conexões emocionais com o conhecimento desde a infância. Isso gera impactos que irão refletir nas escolhas e nos comportamentos futuros dos indivíduos.

Para ilustrar, Uribe mencionou uma iniciativa da Apple na Bélgica e nos Países Baixos nos anos 80, quando a empresa doou computadores para crianças com menos de 8 anos. Segundo ele, foram essas conexões emocionais que fizeram com que os produtos da Apple se mantivessem líderes de vendas nesses países até hoje.

3. Cocriação e o Modelo da Quádrupla Hélice

A colaboração entre universidades, governo, empresas e sociedade civil (o modelo da quádrupla hélice) acelera a criação de soluções inovadoras para o desenvolvimento sustentável das cidades. Quanto mais coordenado e coletivo for esse movimento, mais forte ele se torna. Uribe destacou, inclusive, a importância de uma comunicação unificada e, se possível, da presença física dessas entidades em um mesmo local para potencializar a sinergia.

4. Planejamento Estratégico Centrado no Cidadão

Este talvez seja um dos pilares centrais de sua apresentação. Uribe reforçou ao longo de toda a sua fala que as cidades são feitas por e para pessoas. Sendo assim, o foco deve estar nelas para desenvolvermos um ambiente melhor. A cidade deve ser planejada em torno das pessoas, e não da sua infraestrutura.

Isso cria comunidades fortes, que movimentam toda a engrenagem social. A infraestrutura é uma ferramenta para que as comunidades prosperem, mas quem as faz prosperar são as pessoas.

Uribe contou que, em 1995, Medellín tinha uma frota de metrô com vida útil de 30 anos, que precisaria ser trocada em 2025. Em vez de apenas poupar dinheiro para a substituição, a cidade reuniu universidades, empresas e empreendedores. Ao longo de mais de duas décadas de colaboração, eles desenvolveram a capacidade local para criar o primeiro metrô 100% fabricado em Medellín. Mais uma vez, a colaboração e a visão de longo prazo gerando inovação.

5. Inclusão como Estratégia de Negócio

Barreiras sociais criam barreiras de negócio. Sendo assim, resolver um problema social pode ser uma grande oportunidade de negócio. Identificar o que impede um determinado grupo de clientes de acessar seu produto pode abrir um novo mercado e gerar mais receita.

Ele exemplificou com os espaços infantis em restaurantes. Essa iniciativa atrai pais e mães, pois seus filhos têm um lugar seguro para brincar enquanto a família faz a refeição, resolvendo uma barreira social e, ao mesmo tempo, impulsionando o negócio.

Conclusão

A transformação de Medellín ocorreu por meio das pessoas. A cidade apostou no desenvolvimento de talentos locais, na capacitação de seu povo, para converter uma realidade manchada pelo tráfico em um destino turístico e um polo de inovação reconhecido globalmente.

Uribe materializou algo em que acredito há muito tempo: inovação não é só tecnologia. A tecnologia e a infraestrutura são ferramentas que impulsionam o desenvolvimento, mas a verdadeira inovação é feita de pessoas para pessoas.

Criar ambientes de colaboração, fomentar o pensamento coletivo e investir no desenvolvimento socioeconômico é o caminho para construirmos um futuro melhor para as próximas gerações.

Ao longo dos últimos dois anos a frente da inovação da Sicredi Pioneira, pude experimentar e validar que este movimento é real. Projetos como o Acelreacoop, Startando, Mães que Fazem Acontecer sempre tiverem foco nas pessoas. Estes movimentos transformaram e vem transformando vidas e com isso comunidades. Inovar não é só tecnologia,  inovar é pensar e fazer diferente do que já foi feito até então.

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